Opinião

A bola de Berlim, o micate e os muros

Ainda vivíamos no bairro Caputo, quando tudo aconteceu: soube que aquela cidade alemã existia quando alguém confundiu um micate com uma bola de Berlim. Apesar de haver quem pense o contrário, os dois bolos são parecidos e têm muito a ver um com o outro.

Às vezes gosto de pensar que Berlim é a única cidade do mundo que, quando me apetece, faço entrar pela minha boca: a sensação é saborosa e gosto de repetir. Ao sentir o melaço do recheio a sair e o polvilhado de açúcar entre os dedos sinto-me livre e irresponsável como na adolescência.

As bolas de Berlim fazem-me recordar que, nos anos 80, o meu pai passou oito meses em Bernau e ele e os seus colegas iam passear à cidade de Berlim, para andar pelas ruas, para visitar os sítios e os monumentos e para comer frango assado e beber boa cerveja, nada a ver com a visita que, anos depois, o meu irmão Kady Mixinge fez à mesma cidade e que imortalizou numa fotografia, precisamente, olhando entre as frestas do muro de Berlim: com ela acaba de ganhar o terceiro prémio do concurso de fotografia, que o Instituto Goethe organizou, em Angola, para festejar o dia da reunificação da Alemanha, comemorado no passado dia 3 de Outubro.

O micate, que é conhecido em diversos países africanos com diferentes nomes como, por exemplo, puff-puff na Nigéria e na Serra Leoa, bluffoaf no Ghana, kala na Libéria ou beignet nos Camarões, entre outros, é feito de farinha de trigo ou de mandioca, não tem recheio e faz-me recordar outras coisas: os prédios do Caputo e os do Simão Toco, o Cine N’gola, o mercado dos Congolenses e arredores com o seu caos, em finais dos anos 70 do século passado, com os retornados a dar cartas, pondo tudo de patas para o ar. Vivíamos como os micates, em óleo vegetal fervendo numa frigideira.

Foi mesmo naquele período que, para a nossa família, a bola de Berlim deixou de ser só mesmo um bolo: enquanto isso, a minha irmã São, o Mucumbi e o Paulo foram seleccionados para ir a Berlim, no acampamento internacional de pioneiros. Os meus pais tiveram que autorizar a ida da minha irmã à Alemanha, quando ela tinha apenas treze anos, mas, para mim, o que era importante é que, de um momento para o outro, soube, que, afinal, aquele sabor vinha mesmo de uma cidade: se a bola de Berlim chegou a Portugal e tornou-se muito popular depois da Segunda Guerra Mundial, então, terá chegado a Angola nos anos sessenta do século XX. Ela e o micate – que veio de Kinshasa – terão chegado quase ao mesmo tempo, daí a tendência a confundi-los.

A bola de Berlim remetia-me àquela cidade, nunca para muro nenhum. Já com o micate é diferente. Naquela época para além do esfarelar dos muros identitários, coisa que acontecia todas as vezes que o mercado abria e fervilhava e as pessoas interagiam, outros muros nos preocupavam mais: o muro do campo de São Paulo, que pulávamos para ir ver os jogos de futebol, o muro do Cine N’gola que não podíamos saltar e, o nosso preferido, o muro do quintal da casa do Dudu que, este, era canja. Subíamos e estremecíamos a figueira que lá estava, pois, com o nosso balançar e o vento, os figos maduros caíam facilmente. Todos os figos que fui comendo ao longo destes anos, sabem aos figos do quintal daquela casa redonda.

Quando, logo pela manhã, desde a minha janela vejo as senhoras a passarem com as banheiras plásticas, à cabeça, cheias de bolas de Berlim ou de micates, sei que elas o fazem para saltarem o muro que as mantém na pobreza e ainda bem! Mas, comparando todos os muros: o muro de Berlim, os muros identitários e preconceituosos invisíveis, os muros da diversão, os muros do conhecimento e os muros que existem entre as recordações e os afectos parece ser que mais fácil de derrubar são, mesmo, os muros físicos e palpáveis.

Há muito tempo que deixamos de viver no Caputo. O pior muro que continuamos a manter é o dos preconceitos. Depois de tudo, por mais que os tentemos diferenciar, não importa se tiver ou não recheio de framboesa ou de morango, em última instância, uma bola de Berlim é uma variante de um micate. Pouco importa se este bolo chegou a nós por via de Lisboa ou de Kinshasa: comê-los é estar em comunhão com muitas histórias do passado e com muitos factos do presente, para que nos toleremos melhor.

By: Adriano Mixinge In Jornal de Angola

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